sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Kalaripayit




Compreendendo a dimensão estrutural das artes marciais e suas relações com a história humana, nos reportamos à Índia, onde, segundo alguns estudiosos, existe o mais antigo sistema de luta da história. É preciso lembrar que, as técnicas nascidas das chamadas “lutas de agarrar”, onde não se define um sistema complexo, mas umas séries de elementos significativas no combate desarmadas entre indivíduos, são ainda mais antigas, perdendo-se na pré-história humana. O Kalaripayit destaca-se pela conjunção de fatores que o classificam como sistema de luta, e não conjunto de técnicas de combate homem a homem.
Textos indianos antigos já relatavam esse primitivo sistema no exército indiano, seja na infantaria, na cavalaria, em carruagens e no domínio e controle de elefantes. A própria divisão social da Índia, milenar, demonstra a especialização de uma de suas castas para a vida bélica. A casta Kshântriyas, desde a pré-história, relaciona a vida social e religiosa às práticas marciais. A vida artística, também milenar, da Índia, apresenta a relação desse povo, principalmente dessa casta, com a guerra e o sistema de luta. O teatro dançado, chamado Kathânkali, apresenta movimentos elaborados respectivos de um estudo minucioso de técnicas de lutas, também refletidas nas ornamentações de templos onde aparecem figuras humanas em combate.
Como se perceberá ao longo dos estudos sobre artes marciais, os mestre dos sistemas de luta são, em geral, também grandes conhecedores da medicina. Por trabalharem diariamente em seus treinos com lesões, torções e danos ao corpo, acabam relacionando-se com um conhecimento de cuidados e tratamentos específicos e avançados. Assim, na percepção das origens da Medicina Indiana tradicional, chamada Ayuveda, encontraremos as relações dos sistemas de luta presentes. Do mesmo modo, o conhecimento em cima das técnicas de massagens, são necessários e aplicados em academias marciais. Hematomas, estiramentos musculares, danos em centros nervosos e ossos fraturados são rotinas em academias diversas de todos os sistemas de lutas da humanidade. O mestre torna-se um especialista em medicina, os Shastras, textos indianos antigos, apresentam tal conhecimento do corpo humano, seus pontos vitais. Locais onde se poderão aplicar golpes específicos para a eficácia de danos melhores, como a têmpora, o osso esterno, a veia jugular, testículos, entre outros. Esse estudo do corpo, na índia, não se limitou ao corpo humano, fazendo os adestradores de elefantes ainda mais eficazes no treinamento de tais animais para uso em combates.
O Kalaripayit é o nome indiano do seu mais antigo sistema de luta. Significa, grosso modo, “prática em campo de batalha”, e tem suas raízes na tumultuosa vida bélica da Índia em seus primórdios. Textos antigos, como o Mahabaratha, apresentam guerras intermináveis. O espaço ideal para criação e adaptação de um sistema de luta complexo e poderoso. Uma casta especializada é um forte elemento na construção de um sistema vigoroso de luta, e essa tendência se repetirá ao longo da história dos sistemas de luta asiáticos. O Kalaripayit também terá sua evolução galgada na pluralidade interna de seu sistema, dividindo-se em estilos. Esses estilos não se ofendem ou se negam, apenas apresentam elementos diferenciados para cada região: Norte e Sul. Da mesma forma como ocorrerá em outros sistemas de luta, talvez por uma questão de contato entre os povos asiáticos e a troca cultural, essas divisões de sistemas atenderão posturas e movimentos tratados de maneiras diferentes dentro de um mesmo sistema de luta. No Kalaripayit, o Norte apresentará saltos mais vigorosos, posturas baixas e bloqueios estendidos; o Sul será mais livre, com movimentos circulares, posturas altas e sólidas.
O sistema de luta indiano conviverá com outras artes do conhecimento humano na índia, e se manterá da mesma forma. Sua continuidade, preservação e evolução (preservação de valores e conceitos, evolução de técnicas e movimentos), assim como acontece na Yoga, nas técnicas de massagens indianas, se fundamentará na transmissão oral. O conhecimento através da oralidade tornou-se uma tradição no modo de vida asiático, presente em grande força nos sistemas de luta. A necessidade de um mestre, conhecedor dos ensinamentos, permitia o fortalecimento desse modo de preservação do conhecimento.




Sávio Roz

A Rota da Seda e o Mito de Bodhidarma




O comércio existente entre a Índia e a Mesopotâmia data de aproximadamente 2500 a. C., sendo comentado em muitos textos comerciais. Nos séculos VI a. C. a fabricação da seda estimulou um intenso comércio entre a China e a Índia e esses caminhos ligaram a Ásia à Europa. Caravanas abarrotadas de produtos circulavam incansavelmente nas estradas que ligavam os países participantes. Tiro, Antioquia e Palmira eram cidades recebedoras dos produtos no período do império Romano.
Foi somente quando monges cristãos contrabandearam os ovos do bicho-da-seda que o monopólio dos chineses sobre o tecido virtuoso acabou, isso no século VI d. C., e a seda foi fabricada no ocidente. Se o elemento material fosse fundamental na história da humanidade, a queda da rota da seda seria absoluta. Mas esse comércio entre as nações continuou, não só com outros elementos das chamadas especiarias, mas com o progresso do budismo na Ásia. Entre os monges que viajavam nas estradas da rota da seda estava Bodhidarma, monge indiano oriundo de Kanchipuram, vindo de Madras, entre caminhadas e viagens de barco, viajou pela China, chegou ao templo Shaolin onde se estabaleceu e fundou os ensinamentos que ficaram conhecidos como budismo Zen. Um relato de um viajante, Yang Hsuan-Chih, em 547 d.C., cita-o como um homem auspicioso, de barba e cabelos escuros, entre outros traços indianos. A falta de informações sobre Ta Mo, Como Bodhidarma é chamado na China, pode ser explicada pela posição inicialmente herética de suas práticas.
O mito de Bodhidarma, mesmo que não se concretize enquanto verdade explicita as eventualidades que fazem parte das origens dos grandes sistemas de luta da Ásia. Relacionam o comércio forte e ativo da rota da seda, as relações dos sistemas e a troca cultural das caravanas e dos guerreiros contratados para protege-las.

Sávio Roz

As artes de luta na Europa e no Oriente Médio na antiguidade




Diferente do que se possa imaginar, já que se vincula diretamente o termo “arte marcial” aos sistemas de luta conhecidos no oriente, o ocidente produziu manifestações marciais significativas. Esses sistemas de luta ocidentais não são tão conhecidos hoje em dia por conta da desvalorização histórica, a desvalorização filosófica e teológica que acompanharam as sociedades do chamado ocidente. O contrário aconteceu no oriente, onde a cultura, a filosofia e a religiosidade não só permitiram como estruturaram melhor e organizaram os seus sistemas de luta locais.
Para se entender melhor essa base filosófica e religiosa que se deu de maneiras diferentes nos dois lados convencionais é preciso ter em mente a divisão corpo e mente. As culturas ocidentais, em suas complexas nuances, sempre apresentaram uma separação nesses aspectos de forma antagônica. Separou-se a parte somática da parte mental e espiritual. Aristóteles, por exemplo, argumentava que o ócio permitia a expansão da mente, desvalorizando qualquer desenvolvimento do corpo. Esse pensamento se enraizou na filosofia, mesmo não sendo regra social, já que as guerras continuavam a demonstrar o contrário. Com o advento do cristianismo, esse pensamento ganhou um espaço ainda mais pragmático e o mundo ocidental demorou a entender a frase “mente sã, corpo são”. Como explica José Augusto Maciel Torras, “uma idade média teocêntrica e uma idade moderna antropocêntrica nos fez ter somente idéias de desvalorização somática”.
Mas esse problema, mesmo que tenha castrado avanços nas chamadas artes marciais ocidentais, ou mesmo limitado sua trajetória, não consistiu numa extinção das modalidades marciais tão antigas no ocidente quanto sua própria história social. Toda a documentação que relata guerras e vida belicista das sociedades da antiguidade ocidental apresenta elementos dessa história. Os poemas de Homero, as metamorfoses de Ovídio, A canção de Rolando e outros textos medievais, Epopéia de Gilgamesh, entre outros, trazem uma carga de habilidades, conhecimentos e tratamentos diferenciados aos combates armados e desarmados.
O fato de uma diferenciação dos guerreiros das antiguidades em armas e atividades, montando uma hierarquia dentro dos exércitos, com os Imortais no topo dos exércitos persas, a tropa real do Egito faraônico, os senhores da guerra mesopotâmicos, enfim, uma leva infindável de especialistas nas artes da guerra. Eis que nessa antiguidade se estruturam os sistemas de luta dos gregos. Sua mitologia, assim como ocorreu em outras civilizações, é bem verdade, narra os ensinamentos de Hermes aos homens de um sistema de luta que ficou conhecido como pancrácio. Pancrácio na etimologia da palavra significa “dominar a tudo e a todos”. Sistema de luta violento, não menosprezava nenhuma parte do corpo, aceitando golpes de mãos, pés, joelhos, cotovelos, etc. O pancrácio se embasava da filosofia grega, do culto ao corpo, entre outras modalidades esportivas. Era elemento fundamental nos jogos olímpicos e vem de sistemas de luta comuns nas cidades-estados gregas, praticados até mesmo por mulheres. Esse valor à virilidade e ao combate era apreciado em particular pelos cidadãos de Esparta, cidade belicista da antiguidade grega. Assim como em outras cidades-estado gregas, Esparta possuía ginásios repletos de homens e mulheres que treinavam, exaustivamente, separados, diariamente, preparando-se às disputas públicas. O pancrácio possui elementos que encontramos também em modalidades orientais, tais como as técnicas de alavanca, o Acroquismo, que consiste em torcer os dedos do adversário até sua submissão total. Esse sistema foi aperfeiçoado, dando origem a luta greco-romana.
O Pugilato é um outro importante e popular sistema de luta da Grécia helênica. Sua antiguidade é remota, era um sistema preparatório anterior mesmo aos adestramentos com armas e em tropas. Os heróis greco-romanos Amico e Epeo, como registram os escritos de Platão, eram respeitados e temidos pelas suas capacidades de luta. O primeiro pela grande força física e pelo desfecho de sua história de vitórias nas mãos de Polluxm, lutador de um sistema que será aperfeiçoado pelo segundo, Epeo, tornando-se o Pugilato. Mitos a parte, o Pugilato ganhou enorme popularidade, expandiu-se enquanto sistema e sobreviveu até o Império Romano, assimilado aos combates de gladiadores. Nessa evolução sistemática era praticado de duas maneiras: Combates sem proteções nas cabeças ou punhos, e combates protegidos nas cabeças com elmos de cobre e tiras de couro amarradas aos punhos.
Mesmo com toda a divisão ideológica que limitava o avanço dos sistemas de luta, principalmente a coesão religiosa, a Idade Média apresentou sistemas complexos vinculados às classes de cavaleiros, em especial aqueles especializados para as cruzadas. Para esses guerreiros estagmentados, o pugilato se aperfeiçoou, tornando-se Kick (técnica inglesa que acrescentava golpes com as pernas). Os medievos franceses não ficaram muito longes desses avanços, onde o boxe ortodoxo ganhou espaço e novo nome: Savate. Esses avanços técnicos ocorreram até mesmo na Católica Itália, com o sistema chamado Borzaghino.
Os cavaleiros medievais se destacavam além das técnicas de combate com armas e em cavalos. Os períodos preparatórios às cruzadas e os grandes hiatos de paz nas cortes permitiam a pratica e o aperfeiçoamento de sistemas de lutas que, por tanto se popularizarem, chegavam às cortes e encantavam os nobres. Ricardo coração de Leão ficou famoso também por suas perícias em combates corpo-a-corpo. Incrivelmente coincidentes esses guerreiros de doutrinas esotéricas se assemelhavam aos monges guerreiros que estavam intimamente ligados aos sistemas mais antigos da Ásia, ainda mais por suas formações morais e filosóficas que não conflitavam com os sistemas de combates.
Assim podemos perceber o quanto o ocidente, mesmo com seus percalços e limites ideológicos, conseguiu produzir uma vasta e significativa rede de sistemas de luta, mesmo menosprezada pela historiografias marciais. Os sistemas de luta são compatíveis às necessidades e peculiaridades de cada povo, adequando-se aos seus sistemas religiosos e sociais. A grande vantagem do oriente é a permissividade filosófica e religiosa, além, claro, dos seus elementos peculiares e particulares.

Sávio Roz

Artes marciais primitivas do oriente




O processo de diversificação dos sistemas de luta encontrados no oriente sofreram, ao longo de séculos de aperfeiçoamento, manutenção ou transformação, um pluralismo de ramos. Os estilos se encontram e se contrapõem com a mesma facilidade quando comparados em estudos. Por isso mesmo, definir suas origens se perde em mitos elaborados e idealizados e conhecimento histórico escasso.
Cada sistema marcial tem, em sua origem social, mitos elaborados para confirmar sua natureza simbólica e manter na oralidade a sua história fundadora. Esse tipo de situação não ocorre apenas com sistemas de luta, mas com outros sistemas sociais, como dança, folclore, artes circenses, etc. Cada sistema, atendendo a sociedade original que o criou, com seus mitos relacionados, o faz enquanto preservação de valores. Seguidos cada sistema do mundo, teríamos um problema gigantesco: a falta de espaço para estudar cada complexo sistema, sua origem histórica e sua origem mítica, por isso o trabalho se limitará a estudar o pluralismo dos sistemas marciais asiáticos, famosos por sua grande quantidade de vertentes e sua força enquanto manifestação social.
A relação existente entre a Índia e a China é a matriz da diversificação dos sistemas de luta no oriente. A rota da seda interessava as sociedades participantes enquanto expansão comercial. Desde 500 a.C. a China comercializava com a Índia e as nações próximas. Essas sociedades feudais viviam em guerras constantes, além do fato da rota da seda proporcionar um número considerável de bandoleiros e saqueadores. As caravanas encontravam-se extremamente desprotegidas, o que gerou uma busca grandiosa por comboios seguros. O oriente já possuía uma tradição bélica complexa, com guerras constantes e ritualizadas, proibidas em certas épocas por questões morais e determinadas circunstâncias.
O avanço comercial proporcionado pela rota da seda gerou avanços nas estruturas das cidades, com um número cada vez maior de pessoas. Esse aumento populacional pode ser entendido como uma reação ao sucesso comercial das sociedades envolvidas no comercio expressivo da rota da seda. Nesse momento, a formação de Estados fortes se fez imprescindível. As técnicas de produção e o arsenal para os exércitos seguiram a expansão da máquina do Estado para cada recém nascida nação.
A formação de exércitos profissionais, assim como o aumento do número de seguranças individuais que acompanhavam as caravanas abarrotadas de produtos, gerou uma série de especializações nas artes da guerra. Engenheiros, cartógrafos, especialistas em sinalização, operações anfíbias e de espionagem. Essa especialização pode ser percebida nos capítulos do livro A arte da Guerra, onde o famoso general chinês Sun Tzu, em meados de 350 a.C., elaborou as estratégias fundamentais nos combates de exércitos num período recheado de conflitos desta natureza.
Esses elementos citados podem ser mais caracteristicamente encontrados na era dos Estados Litigantes, entre 480 e 221 a.C., com as longas jornadas das caravanas comerciais que trocavam produtos entre cidades populosas e importantes, protegendo-se de bandidos e foras-da-lei empregando guarda-costas especializados em combates homem a homem com ou sem armas. Essas especializações e os contatos existentes entre esses artistas marciais alimentou a evolução e diversificação das artes marciais.
Os sistemas marciais do oriente tiveram poucos conflitos com seus sistemas de valores. Na maioria dos casos, até mesmo eram confirmados por esses mesmos sistemas. O Taoísmo e o budismo raramente se excluíram e nem excluíam sistemas de luta. Kung Fu Tse (Confúcio), em torno de 500 a.C., não teve seus ensinamentos incompatíveis com as práticas marciais, muito pelo contrário, apenas deram um conteúdo intelectual e de valores à esses sistemas. Lao Tzu (300 a.C.) seguiu a mesma premissa.
No caso indiano, a própria sociedade dividida em castas possuía uma divisão de destaque para os guerreiros e seus descendentes. Essa casta compreende a vida como um conflito perpétuo, e sua religiosidade reafirma sua posição enquanto força marcial. A própria mitologia religiosa da Índia comprova essa afirmação social da classe guerreira com seus deuses em épicos gigantescos e intermináveis. Segundo a tradição Hindu, através do legado oral, os textos indianos chamados Shastras ensinam métodos de ataque a pontos vitais no corpo humano. Esse mesmo conhecimento será encontrado em outras sociedades asiáticas. Os estilos militares da Índia e da China possuem padrões de semelhança que são compreendidos nas trocas culturais das relações comerciais da rota da seda. O mesmo caminho que ligou economicamente esses dois e muitos outros países, ligou a todos nas trocas de conhecimentos de culinária, medicina, e, claro, sistemas de luta. O uso dessa rota da Seda se intensificou no século VI a.C., e foi passagem de famosos peregrinos eruditos, como Hsuan Tsang (600 a 664 d.C.), que percorreu a China e a Índia, onde se imortalizou como o Lendário Tripitaka em uma coletânea de lendas escrita por Wu Ch´eng-en que e abordou características desse período em seus escritos.
Seria uma tentativa desastrosa considerar uma origem aos sistemas de luta a uma nação especificamente. Os sistemas nasceram e se aperfeiçoaram com o passar do tempo, com seus elementos originais e seus elementos recebidos de outras culturas marciais. Ideologicamente, o budismo, o confucionismo, o taoísmo, o Hinduísmo, entre outros sistemas religiosos e filosóficos, formam a base das tradições marciais da Índia, China e resto da Ásia. Se for de definir um local de nascimento aos sistemas de luta da Ásia, as estradas da rota da seda são o local mais exato. Seus pais, monges, peregrinos e diplomatas de muitas nações.

Sávio Roz

Introdução: Problemas e paradoxos na definição e na origem histórica




Estudar as artes marciais exige uma certa compreensão das dificuldades encontradas em sua pesquisa original. O mundo define europocentricamente os sistemas complexos de luta do oriente como "artes marciais", mas encontra-se um paradoxo em sua definição.
Para começar, o termo "artes marciais" possue sua origem na nomenclatura grega, relacionando a atividade apresentada como "artes do Deus Marte". Essa falha poderia ser perdoada se não fizesse relação direta com a guerra. Claro que todos os sistemas de luta criados pelo homem são utilizados para combates, em sua supremacia, em guerras. Mas elas não se limitam a isso.
Os sistemas de luta orientais, por questões sociais e religiosas, apresentam uma relação com guerras um pouco sinuosas. Textos como os de Lao Tzu, Tao Te Ching, demonstram um certo desgosto ao combate em guerras políticas, mas apresentam um entendimento da existência dos sistemas de luta para que o justo possa se defender.
Para encurtar esse entendimento da relação dos sistemas de luta do oriente, o mal utilizado termo "arte marcial" e sua natureza belicista, parafraseio José Augusto Maciel Torras, Presidente da federação Baiana de Kung Fu, dizendo que as artes de luta "sem o burilamento espiritual, tornar-se-á uma arma desenfreada no poder do homem". Esse tipo de preocupação se confirma no modo de pensar dos grandes sistemas do mundo.
A questão da definição histórica é ainda mais complicada, pois se perde em períodos que não existem mais documentação, e até mesmo onde a documentação seria impossível, pois muitos sistemas existiam antes mesmo da escrita ser conhecida. Além do fato de ser uma rede indecifrável de mitos e especulações ao longo da história. O pouco que se sabe com exatidão é originário de trabalhos com oralidade histórica, tradições artísticas e literárias entre os séculos IV a.C. e III d.C. produtivamente.
Esses problemas iniciais jamais conseguirão tirar o esplendor de nenhum dos sistemas de luta, nem mesmo dessa forma de arte humana. Caso alguns ainda achem tudo isso muito vago, como no livro "O Caminho do guerreiro", Howard Reid e Michael Croucher, "compare-o com os esforços que se fazem para determinar a data de certos acontecimentos essenciais para o desenvolvimento de outras artes antigas - a culinária, a fabricação de vinhos, a fabricação de queijos ou a própria agricultura, por exemplo".
Enfim, esses problemas devem ser primeiramente apresentados nessa introdução para que se tome os devidos cuidados e se pense flexivelmente nos estudos e nas produções de pesquisas na área.

Sávio Roz

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Artes Marciais

Mito e História nas raízes das artes marciais

UMA ANÁLISE CRONOLÓGICA, DE SUA ORIGEM ATÉ AS TRANSFORMAÇÕES, DAS ARTES MARCIAIS E SUAS RELAÇÕES SOCIAIS COM AS CULTURAS QUE FAZEM PARTE. ABORDAGENS SOBRE DIFICULDADES NA EXATIDÃO HISTÓRICA, MITOS E REALIDADES, OBSERVANDO OS ELEMENTOS QUE AS CARACTERIZAM E AS MUDANÇAS QUE LEVARAM ATÉ SUAS FORMAS ATUAIS.

ENTENDER O DESTAQUE DAS ARTES MARCIAIS ORIENTAIS E OS FATORES SOCIAIS, RELIGIOSOS E IDEOLÓGICOS QUE PERMITIRAM SEU AFLORAMENTO E SUA MANUTENÇÃO. COMPREENDER A ARTE MARCIAL NO OCIDENTE, SUA DESVALORIZAÇÃO IDEOLÓGICA E HISTÓRICA. POR FIM, ANALISAR A RELAÇÃO QUE A MODERNIDADE TEM COM ESSAS MESMAS ARTES DE LUTA..

CONTEÚDOS:
Introdução: Problemas e paradoxos na definição e na origem histórica
As artes marciais primitivas do oriente
As artes marciais na europa e no oriente médio na antiguidade
A rota da seda e o mito de Bodhidarma
O Kalaripayit
Tradições Shaolin
Artes suaves da China
Escolas clássicas de armas do Japão

Bons estudos!

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

O ESTIGMA DO BATMAN


_____Eu era muito criança quando vi pela primeira vez aquela figura humaniode trajado de morcego e escondendo-se em sua capa. Tudo bem que sua capa era azul, naquele momento, pois, como sou da primeira metade dos anos 80, peguei uma fase interessantíssima de transição, em que todos os personagens estavam passando por mudanças em suas configurações e Neil Adams direcionava o velho morcego para o que chamaríamos de “Crise”, sua história seria recontada pelo Frank Miller em sua obra canone “O Cavaleiro das Trevas”. Isso ainda nem fazia-se como fato em minha cabecinha infantil.
_____Eu só via naquela figura uma certa paternidade desencontrada, acredito, já que a sua vivência do mundo (um mundo fictício muito semelhante a realidade mas com suas peculiaridades que naquele período em nem imaginava existir). Eu queria aprender com ele para viver naquele mundo, que para mim era o mesmo que este. As cores e as ações altruístas de grandes seres mitológicos representados em desenhos e vivos nas sequencias de seus quadrinhos era tudo que eu precisava para me sentir vivo, ou melhor, para me sentir um igual.
Será que eu acompanhava aquelas figuras fantásticas por que no fundo existiam nelas coisas que eu tinha em mim ou, por não fazer idéia, tudo aquilo estava de alguma maneira moldando a minha personalidade? A resposta parece seguir óbvia por um lado, mas o lado contrário mantém uma certa verdade incontestável. Complicado nessa etapa da vida tentar definir o que aconteceu, já que a mitologia dos quadrinhos e essas criaturas além da realidade já faziam e fazem parte de mim de uma maneira que a separação é praticamente impossível.
_____De certa forma eu me formei enquanto pessoa, cidadão, ser humano, com esses seres não-humanos mas muito mais humanos que os seres humanos que me cercam até hoje. Na busca de uma resposta para qualquer coisa sei com exatidão que tudo isso corresponde a noção de valores que esses meus amigos de papel e suas histórias fabulosas sempre me trouxeram, seja de um modo simplista e infantil, seja com a seriedade de uma narrativa policial ou psicológica. São valores que, correspondendo aos que já havia acumulado ou simplesmente absorvido, hoje fazem parte de minha personalidade ao ponto de quase não ser exagero dizer que sou um personagem de quadrinhos perdido no mundo real.
_____Acima de tudo isso, aqueles quadrinhos me passaram valores reais, do meu mundo real, de acontecimentos históricos a tendência, foi por eles que eu compreendi primeiramente o mundo. Praticamente foram os quadrinhos que definiram minhas visões de mundo e nortearam as minhas escolhas profissionais e me apresentaram os anos 80 que vive e logo em seguida me apresentaram os anos 90 e continuam me mostrando de forma prazerosa essa minha realidade.
_____Meu pai morcego está presente em todo esse aprendizado. Primeiro com suas cores azuis e suas longas cenas de ação individual, quase solitária, se não fosse a minha invisível presença acompanhando atentamente seus passos e atitudes e chegando a um nível onírico de ler em linhas seus pensamentos. Foram suas falas e pensamentos que me ensinaram com exatidão a ler além dos muros da pequena escola no Jardim Cruzeiro. Foram as representações de sua figura que me ensinaram a desenhar sua anatomia e suas sombras. Foram suas indagações que fomentaram o meu pensamento crítico. Batman me ensinou a ser um homem, mesmo quando eu ainda era um menino.
_____Suas conversas explicativas com o seu parceiro, Robin, foram quase que direcionadas a mim. A função inicial do Robin, o mais marcante sidequick, era a de ouvinte dessas formulações da ação, que deveriam ser quase que sempre introspectas mas ganharam espaço enquanto explicação ao seu discípulo. Na mesma sala de aula que Robin aprendia a ser um Batman eu aprendia a ser uma pessoa melhor que poderia se estivesse à deriva desde a infância. Essa construção de valores é necessaria a todos os seres humanos, como referências familiares, sociais, comunitárias. O ser humana precisa se sentir parte de algo, fazer parte de alguma coisa para construir a sua personalidade e existir enquanto ser social. Eu tive a ajuda dessas obras em qaudrinhos para isso.
Hoje, eu e meu paternal amigo morcego comemoramos a vida e o aprendizado. Que o sofrimento seja sempre algo de útil e que a tristeza seja sempre temporária.